Feedback: uma ferramenta que precisamos calibrar

Quando pensamos em feedback, muitos são os conceitos e opiniões que surgem acerca dessa ferramenta de vital importância na vida profissional. Isso se deve ao fato do feedback ser, em suma, uma percepção, ou seja, um prisma visto por outra pessoa. Por isso, antes mesmo de dar um feedback a alguém, é necessário passar a informação por crivos iniciais, para evitarmos injustiças com o outro.

Conta-se que Sócrates, em seus diálogos, ao ser interpelado por um de seus discípulos, ansioso por lhe contar algo preocupante sobre uma pessoa conhecida, questionou se este havia passado a informação pelas três peneiras: verdade, bondade e necessidade.

Começando pela peneira da verdade, é essencial entender que o feedback não é a verdade absoluta propagada pelos filósofos, porém é a verdade da pessoa que observa. Devemos nos indagar se aquilo que vamos transmitir a outra pessoa é, de fato, aquilo que podemos observar e aquilo que acreditamos realmente. Nunca podemos se basear em “achismos” e em “ouvi falar de alguém”.

Na segunda peneira, nos deparamos com a bondade, não no sentido de sermos bonzinhos com fulano ou sicrano, mas com a intenção genuína de ajuda. Mesmo que tenhamos que ser severos ou objetivos, nosso propósito sempre será positivo. A forma como damos o feedback também pode ser bondosa, na medida em que somos cuidadosos com o outro. Lembre-se de ser empático e pensar em como é difícil receber e assimilar certos pontos, principalmente quando temos todos áreas cegas e de atenção.

O terceiro crivo consiste na necessidade, e uma pergunta que surge à mente é: “Se eu não der esse feedback, qual será o impacto na vida desta pessoa?”. Sabemos que um incêndio começa com uma pequena fagulha e nossa negligência pode ser fatal na carreira de um profissional. Devemos lidar também com aspectos passíveis de serem aprimorados, de acordo com as limitações individuais.

Pronto! Agora podemos começar a dar o feedback? Ainda não! É arriscado começar esse processo sem contextualização. Devemos investir em um bom “rapport”. Rapport é uma palavra de etimologia francesa incorporada ao jargão organizacional e terapêutico, que representa, a “grosso modo”, o bom e velho “quebra-gelo”. Estabelecer um vínculo de confiança é primordial para que o outro nos ouça verdadeiramente.

Se não cuidarmos antes de todos estes pontos previamente abordados, poderemos estar fadados ao fracasso e nosso objetivo terá o efeito oposto ao que imaginamos. É só pensar em como gostaríamos de receber um feedback, para nortear nosso proceder neste momento delicado.

Existem inúmeras teorias, metodologias, regras e dicas possíveis para esta ocasião, mas quero compartilhar minha experiência, que simplesmente é fruto da vivência de outros profissionais e empresas que agregaram em muito à minha carreira.

Costuma ser de bom tom iniciar o feedback exaltando os pontos positivos, elencando todas as qualidades, sucessos e competências observáveis da pessoa. Obviamente, temos que ser verdadeiros nesta fala, para evitar sermos vistos de maneira falsa ou distorcida. É importante caprichar nessas considerações, sem exageros. Quando recebemos elogios, num primeiro momento constatamos que estamos sendo vistos de modo global e não apenas criticados. Outro motivo é o de mostrar que só podemos modificar comportamentos se nos apossarmos de nossas fortalezas.

Em seguida, podemos citar, de modo objetivo e específico, os principais pontos de aprimoramento que percebemos. Nunca fale sobre defeitos ou pontos negativos, mas sim aspectos passíveis de serem desenvolvidos. Ao finalizar essa etapa, é interessante retomarmos alguns pontos fortes evidenciados, mostrando que a pessoa pode utilizar seus atributos como subsídios para lapidar o que precisa. Estabelecer tais links e aproximar o discurso da realidade tende a ter um efeito muito salutar e esclarecedor.

Seja em que situação for, pontual ou formal, profissional ou particular, é possível aproveitar essas reflexões sobre feedback, até para que possamos disseminar essa cultura por meio desta ferramenta barata e eficaz. O feedback é um primeiro passo. Depois, é só elaborar um plano de desenvolvimento individual, de maneira bem estruturada, e cumprir de maneira disciplinada essas trilhas. Recordo, apenas para arrematar minhas ponderações, que o principal interessado nessas ações de desenvolvimento é você mesmo.

Elton Leme

Aconselhador de Carreira
Graduado em Psicologia pela Universidade São Marcos e formação em TI pela Fundação Getúlio Vargas

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *