Como evitar a fuga de cérebros para outros países

Confira mais um artigo exclusivo de Norberto Chadad, Presidente da Thomas Case & Associados para o app da Revista Você S/A.

Começo este artigo com a constatação de uma tendência importante para um setor do mercado de trabalho nacional. Há um ano, iniciou-se um movimento dentro de um site de relacionamento profissional no qual um banco de investimentos português busca jovens profissionais da área de TI para atuar na montagem, manutenção e reprogramação de bancos de dados.

Por se tratar de uma instituição financeira internacional, que envolve investidores de muitos países e numerosas transações que demandam bancos de dados gigantescos, o trabalho é pesado e quase que perpétuo. Tenho conhecimento de que vários especialistas brasileiros foram selecionados, recrutados e contratados.

Qual seria o interesse deste banco estrangeiro em procurar talentos da tecnologia no Brasil? A resposta é simples: são trabalhadores baratos para os padrões da União Europeia. Em contrapartida, por que tantos jovens brasileiros querem residir em Portugal? Ao entrar nesse mercado de trabalho, os técnicos brasileiros passam a ser vistos e cobiçados por outros operadores bancários. Prova disso é o número de profissionais que se transferiram de Lisboa para locais como Zurique e Luxemburgo, com relevante aumento de salário.

Quais são as vantagens de trabalhar na Europa? Uma delas agradaria muitos brasileiros: a violência urbana é mínima. As pessoas deixam os carros estacionados nas ruas sem a preocupação de serem furtados. Outra vantagem refere-se a questões trabalhistas: os salários não são corroídos pelo custo do plano de saúde, porque o sistema público funciona. O horário de trabalho é flexível e não se mede a efetividade pelo número de horas trabalhadas, mas pela qualidade do resultado apresentado. Não é prática comum “puxar o tapete” do colega de trabalho: a liderança é baseada em profissionalismo e compreensão.

Outro ponto que também agrava o êxodo é o desemprego que atinge 11,9% da população economicamente ativa do Brasil, segundo dados do IBGE divulgados em outubro. São quase 12,5 milhões de trabalhadores inativos. Já as pessoas empregadas temem que essas oscilações do mercado de trabalho brasileiro aumentem ainda mais esse volume.

Tanto é que países de outros continentes, como China, Austrália, Canadá e Estados Unidos, apesar da política nacionalista de Donald Trump, estão atraindo muitos brasileiros. Reportagem recente da revista Veja revelou que subiu 10% o número de especialistas brasileiros que preferiram mudar para os Estados Unidos nos últimos quatro anos. O estudo feito pela JBJ Partners mostrou que famílias inteiras optaram por essa mudança e que a faixa etária dos profissionais aumentou – de 25 a 29 anos para 39 a 40 anos –, ou seja, além dos jovens, profissionais mais maduros também migraram.

Mas como evitar que nossos talentos abandonem o Brasil e não busquem o mercado de trabalho estrangeiro? Como gestor de RH e empresário, minha opinião é de que o plano de carreira oferecido pelas empresas é um atrativo incomparável. O profissional tem sonhos, propósitos e desejos. Quer crescer, ser reconhecido e respeitado pelos resultados que apresenta.

A empresa que quiser reter os talentos deve se estruturar para deixá-los satisfeitos. Respeitar expectativas é quase uma obrigação, assim como compreender e aceitar as diferenças. Os gestores necessitam estimular a máxima de que “liderar não é chefiar”, mas distinguir situações que ocorrem entre a demanda e a entrega. E, acima de tudo, é preciso prover um ambiente de alegria, camaradagem e tranquilidade. Ninguém gosta de clima hostil. Ninguém pode negar que um colaborador feliz e respeitado produz mais e melhor.

É perfeitamente possível construir um bom plano de carreira. Quando bem aplicado, ele ajuda a empresa a atrair profissionais de excelência e a reter aqueles que já fazem parte do quadro de trabalho. Contribui, ainda, para melhorar o direcionamento dos profissionais, motivar, aumentar a produtividade e formar líderes com a alma do negócio.

Será que estamos cumprindo nosso papel na retenção de talentos? Se o trabalho não for bem feito, perde o empresário, perde o gestor, perde o colaborador, perde o país.

Norberto Chadad

Presidente da Thomas Case & Associados

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