Desalentados: 4,7 milhões se sentem sem esperança de emprego no Brasil

O número de brasileiros que, de tanto batalharem para arranjar trabalho e não conseguiram, desistiram até de tentar. Para o IBGE, eles estão em situação de desalento. Confiram a participação de Luciane Orlando, Consultora de Carreira da Thomas Case & Associados Campinas, no Correio Braziliense, Coluna Eu Estudante, o jornal mais importante de Brasília. 

Por Thaís Martins

Há cinco anos sem conseguir trabalho, Valéria Alves de Moraes, 38 anos, não sabe mais como fazer para achar uma vaga. “Eu paro de procurar, depois volto a entregar currículo. Mas eu preciso arrumar emprego. Meu marido é garçom e só com a renda dele não dá para pagar aluguel, água, luz… Eu quero trabalhar”, lamenta. Para driblar a falta de dinheiro, Valéria atua como manicure em casa e fez um curso de secretariado escolar, mesmo assim, não consegue uma colocação. “A primeira coisa que eles perguntam é se tem filhos. Quando a gente responde que sim, dizem que vão ligar e não entram mais em contato. Outro empecilho é a idade”, percebe ela, que é mãe de três crianças. Há mais de 30 dias sem procurar emprego, Valéria integra o grupo de mais de 4,7 milhões de desalentados. Na definição do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), essa é uma parcela da população que, de tanto procurar emprego e não achar, desistiu de tentar trabalhar. São profissionais que não tomaram providências para conseguir emprego nos últimos 30 dias, mas que aceitariam uma vaga caso alguém oferecesse.

“Eu paro de procurar, depois volto a entregar currículo. Mas eu preciso arrumar emprego. Meu marido é garçom e só com a renda dele não dá para pagar aluguel, água, luz “Eu quero trabalhar” Valéria Alves de Moraes, há cinco anos sem emprego

Os números são da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua do 4º trimestre de 2018. A última edição da pesquisa registrou um aumento de 8,1% no número de brasileiros nessa situação em comparação com o mesmo período do ano passado. A média de 2018 apresentou aumento de 13,4% com relação a 2017. O motivo para a multiplicação do montante de desalentados no país, de acordo com Luciano Maia, diretor da região Centro-Oeste da consultoria de carreira Lee Hecht Harrison, é simples: o desemprego. “Se tivéssemos um mercado que absorvesse as pessoas, elas, naturalmente, seriam empregadas e não engrossariam a fila do desalento”, afirma. Isso porque, apesar da contínua queda no número de desempregados, ainda há 12,669 milhões de pessoas sem trabalho no país. “As taxas vêm diminuindo sensivelmente, em uma velocidade baixa. Mas temos pessoas que estão procurando uma colocação há dois ou três anos, porque não tem vaga”, explica.

“A taxa de desemprego geral diminuiu, mas aumentou a do desalento. As pessoas deixaram de estar desempregadas para estarem desalentadas” Luciane Orlando, consultora de carreira da Thomas Case & Associados

Em janeiro, o IBGE voltou a registrar aumento dessas taxas, depois de nove meses de queda. Porém, na comparação com o mesmo período de 2018, houve uma diminuição de 2%. “A taxa de desemprego geral diminuiu, mas aumentou a do desalento. As pessoas deixaram de estar desempregadas para estarem desalentadas”, alerta Luciane Orlando, consultora de carreira da Thomas Case & Associados, especializada na gestão de carreiras e RH. O mais preocupante, de acordo com ela, é o perfil das pessoas que formam essa massa da população. “Em geral, são os mais idosos e as mulheres. Mesmo com uma escolaridade maior, às vezes, elas têm de tomar conta de alguém, seja um idoso, seja um filho. Isso dificulta a entrada delas no mercado”, aponta. “Também há os pretos e pardos, porque eles têm menos escolaridade, e os jovens, por falta de qualificação… Eles não tiveram tempo para desenvolver habilidades que só se aprimora no mercado”, afirma.

A morte da esperança

Desistir de procurar emprego é uma situação extrema, como observa Luciano Maia, graduado em administração pela Universidade Católica de Brasília (UCB). “A pessoa perde o ânimo de continuar na busca. Isso é um grande problema. Ela está procurando uma solução e pensa que não tem uma, isso é muito triste”, diz. “Emprego é o meio pelo qual a pessoa sobrevive, se relaciona, desenvolve autoestima, planeja casamento, filhos. Tudo isso desaparece do radar quando ela entra no desalento. Existe uma desistência da vida”, completa. A preocupação de Luciano é em relação aos altos níveis de doenças emocionais relacionadas. No Brasil, há 11,5 milhões de pessoas com depressão e 264 milhões com ansiedade, de acordo com dados da Organização Mundial da Saúde (OMS).

“A pessoa perde o ânimo de continuar na busca. Isso é um grande problema. Ela está procurando uma solução e pensa que não tem uma, isso é muito triste” Luciano Maia, diretor da consultoria de RH Lee Hecht Harrison (LHH) no Centro-Oeste

“O desalentado é, sobretudo, um desesperançado. É a morte daquilo que a sabedoria popular diz que é a última coisa a morrer. Quando a esperança morre, com ela, se vai o desejo de viver”, afirma. “Quando alguém está no desalento, isso pode se transformar em uma síndrome e gerar adoecimento. A possibilidade de ter uma depressão é alta, e é um momento em que as pessoas acabam consumindo com mais frequência substâncias como álcool e cigarro”, completa Luciane Orlando. “Esse desalento pode ocasionar consequências ainda mais severas, tanto em nível individual quanto social, como o agravamento da violência urbana, do tráfico de drogas e da prostituição, porque a pessoa tem que buscar sustento por algum outro meio”, enumera Luciano. “Pior do que o desemprego é o desalento”, emenda.

Sem expectativa

Retomar a profissão depois de tanto tempo longe da prática pode ser muito difícil. “Em longo prazo, isso significa um gigantesco número de pessoas que não conseguem mais entrar no mercado de trabalho. Porque as empresas preferirão um recém-formado do que alguém que esteve tanto tempo parado”, destaca Luciano Maia. O afastamento do emprego também gera desatualização. “O trabalhador deixa de ter as habilidades necessárias. Não esquecemos de andar de bicicleta, mas se paramos de praticar, ficamos sem alguns saberes práticos, como ser capaz de empiná-la. O mesmo ocorre no trabalho”, explica Luciane Orlando. Para que essas pessoas consigam voltar ao mercado formal, seria necessário, de acordo com Luciano, que o país voltasse a crescer de tal maneira que passassem a sobrar oportunidades de trabalho.

“Vamos supor que esse governo dê certo e que as vagas comecem a abrir, mesmo assim, a solução não virá de forma imediata. Daqui a quatro anos, o mercado passaria a precisar de trabalhadores”, diz. “Foi o que aconteceu em 2002. Com emprego pleno, a pessoa é arrancada de casa e é inserida”, explica. Caso contrário, o jeito é procurar outra solução, como empreender, trabalhar de forma autônoma, arranjar renda extra e fazer bicos. “Esse é um fenômeno que sempre irá nos atingir enquanto seres humanos. Teremos décadas boas e outras nem tanto. Existem eventos incontroláveis, como guerras e crises econômicas. Haja vista a situação da Venezuela, que tem muitas pessoas desempregadas e não há o que se possa fazer. A questão é como lidamos com as crises que atravessamos. A primeira coisa é não deixar a esperança morrer”, afirma.

“Quando alguém diz ‘não vai ter jeito’, discordo na hora. O mundo já passou por situações mais severas, e a vida continuou. Tem gente que pensa ‘esse governo entrou e só vai piorar’. Mesmo que não seja do meu alinhamento ideológico, eu não posso dizer ‘agora acabou’. Em uma análise histórica, é possível ver que muitas grandes corporações surgem no período pós-crise”, afirma. “A pessoa fica desempregada, arranja uma cabrinha e resolve fazer leite e queijo. A Piracanjuba, por exemplo, começou assim. O dono da empresa não tinha a vaquinha no projeto de vida dele. O projeto dele era viver. Ele se negou a ser um desalentado. Não é rápido, nem fácil, mas começa com uma decisão”, exemplifica Luciano. O problema, de acordo com ele, é a falta de incentivo.

Falta formação

A falta de capacitação e, principalmente, de capacitação de qualidade, é um problema de longa data, apontado por Sherlly Souza, consultora de carreira da rede de escolas de profissionalização Cedaspy Professional School (CPS), como um dos principais alimentadores do desalento. “Essa é uma das questões que mais identificamos. Mesmo tendo curso superior e experiência, há pessoas sem capacidade”, ressalta. O que não abarca apenas aspectos técnicos, mas também comportamentais, como saber trabalhar em equipe, ter iniciativa e engajamento.

“Nessa área de informática são necessárias muitas certificações, além da graduação. Se você só tem o básico, eles olham com discriminação” Lucas de Oliveira Souza, graduado em redes de computadores

Lucas de Oliveira Souza, 25 anos, percebe que a falta de capacitação é um dos empecilhos para conseguir se incluir no mercado de trabalho. Graduado em redes de computadores pela Universidade Paulista (Unip) há dois anos e sete meses, ele engrossa a fila do desemprego. “Nessa área de informática, são necessárias muitas certificações, além da graduação. Se você só tem o básico, eles olham com discriminação”, explica. Ainda como universitário, Lucas estagiou com manutenção de computadores, mas não acha que a experiência agrega muito valor. “Conversando com as pessoas, percebi que os empregadores quase nem consideram isso. Tenho experiência na parte técnica, mas eles querem quem já tenha lidado com público, por exemplo”, diz.

Empreender para vencer a crise

“Muitas vezes, a nossa sociedade não estimula esse tipo de iniciativa. Quando a pessoa quer começar um negócio, é considerada perdedora. É preciso ter uma mudança de pensamento. É importante usar a criatividade. O que eu posso fazer, que tipo de consultoria eu posso prestar? Em muitos casos, será muito melhor partir para ser um profissional liberal ou abrir um pequeno negócio”, defende Luciano Maia. Esse foi o caminho encontrado por Mariana Ramonne, 36 anos. Depois de largar um emprego como técnico-administrativa por acreditar que poderia achar algo melhor, há quatro anos, ela se deu conta de que não seria tão fácil assim. A demora para arranjar outra oportunidade acabou levando-a a perder as esperanças. “Desisti há três anos, porque não consegui uma recolocação com salário equivalente. A crise política e financeira já estava acontecendo”, lembra.

“Sou multifuncional, eu me viro para me manter financeiramente” Mariana Ramonne, autônoma

A solução, então, foi procurar outras formas de se manter. “Resolvi empreender. Em 2017, criei uma loja de bijuterias virtual, passei a vender para vários estados. Hoje também atuo como personal organizer. Sou multifuncional, eu me viro para me manter financeiramente”, afirma. Casos como o de Mariana são cada vez mais comuns. Em 2018, 37,5% dos empreendimentos abertos foram motivados por necessidade, ou seja: é o caso de pessoas desempregadas que encontram no empreendedorismo uma forma de conseguir rendimentos. Apesar de essa taxa diminuir desde 2015, ainda é um nível alto em comparação com os últimos 10 anos. Os dados são do Relatório Executivo Brasil 2018, divulgado pelo Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas).

Luz no fim do túnel

Apesar de ser difícil retornar ao mercado formal, Sherlly Souza garante que é possível. Só é preciso se reposicionar. “Muitas pessoas não sabem como se apresentar por meio de um papel. É preciso fazer um currículo mais elaborado. Procure cursos que ajudem a desenvolver competências como trabalhar em equipe”, explica. De acordo com ela, as chances de conseguir uma oportunidade mesmo sem experiência existem porque, muitas vezes, as empresas estão atrás de um profissional novo. “Elas querem pessoas sem vícios, mas é preciso ter uma bagagem, mesmo que não tenha experiência. Mostre proatividade, comprometimento e não tenha preguiça”, destaca.

Saia dessa situação!

Para conseguir voltar ao mercado de trabalho, Luciane Orlando, consultora de carreira da Thomas Case & Associados, lista algumas dicas:

Currículo

É preciso refletir e atualizar o documento. Informe todas as suas formações, inclusive curso de idiomas. Descreva os cargos que já ocupou. Coloque informações de contato, use um e-mail sério (nada daqueles que remetem a apelidos). Lembre-se de que esse é o seu cartão de visitas.

Redes sociais

Tenha perfis digitais, especialmente no LinkedIn, atualizado de acordo com as informações que você disponibilizar no seu currículo. Saiba usar esse tipo de canal com seriedade. Se preferir ter Facebook e Instagram, use de forma adequada, porque as empresas olham para isso.

Networking

Durante o período de desemprego, as pessoas tendem a pensar que precisam conter gastos, mas não podem deixar de sair, ver gente. Mantenha sua rede de contatos, pois ela pode ser a porta para arranjar um trabalho.

Foco

Não atire para todos os lados. Dá para buscar emprego em outras áreas e segmentos, mas continue na mesma linha de trabalho

Saúde

Reserve tempo para si mesmo e cuide do seu bem-estar físico e mental. Exercícios físicos são ideais.

Entrevista

Esteja preparado para esse momento, que faz parte de seleções de trabalho. Vá com roupas adequadas. Não fale mal dos antigos empregos, por mais que esteja chateado, e não invente histórias sobre o porquê de estar desempregado.

*Estagiária sob supervisão da subeditora Ana Paula Lisboa

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Thomas Case & Associados

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