Quanto vale um diploma na política

Após polêmicas envolvendo os ministros escolhidos por Bolsonaro, discussão sobre a qualificação dos governantes volta a ser pauta. Indicamos Marcia Vazquez, Consultora de Carreira e Gerente de Negócios Corporativos da Thomas Case & Associados, para comentar sobre o assunto à Beta Redação, um canal que integra diferentes atividades acadêmicas do curso de Jornalismo da Unisinos.

Por Elisa Ponciano

Dois dos ministros escolhidos pelo novo governo, de Jair Bolsonaro (PSL), apresentaram maiores controvérsias em suas formações. Em janeiro, a ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves, foi criticada nas redes sociais após se apresentar como mestre em Educação, título que não possui. Ao ser questionada, afirmou se tratar de uma formação concedida pela igreja que frequenta, uma espécie de “mestrado bíblico”.

Caso semelhante aconteceu com o atual ministro da Educação (substituto de Ricardo Vélez Rodríguez), Abraham Weintraub, que foi apresentado por Bolsonaro como doutor e professor universitário, mas, na verdade, possui o título de mestre em Administração Financeira. Outra contradição ocorreu com o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, que afirmou em diversas entrevistas ser mestre em direito público pela Universidade Yale. Salles foi desmentido e admitiu que possui formação em Direito, mas que não cursou a instituição em questão. Apesar das polêmicas, todos os ministros do novo governo têm formação superior. As duas situações reacenderam a velha discussão sobre a formação dos políticos no Brasil.

Um discurso que se repete

O currículo acadêmico é um tema historicamente bastante comentado em outros governos, com destaque ao mandato de Lula, quando ele próprio, como presidente, sofreu críticas por não possuir formação superior.

No panorama geral, de todos os presidentes que o Brasil teve, apenas dois não tiveram formação superior ou não chegaram a se formar. É o caso de Café Filho (1954–1955) e de Lula (2002–2013). Entre as áreas de formação dos demais, dos 38 presidenciáveis, 19 eram bacharéis em Direito e nove possuíam formação militar.

Em nosso país, a formação superior não é exigida para exercer um cargo político. Mesmo assim, dados do TSE apontam que, nas eleições de 2018, o percentual de candidatos que tinham nível superior completo aumentou 4%, passando de 45%, em 2014, para 49%.

Entre os governadores, apenas dois dos 27 não possuem formação superior. É o caso de Reinaldo Azambuja, do Mato Grosso do Sul, que tem Ensino Superior Incompleto, e Mauro Carlesse, de Tocantins, com Ensino Médio apenas. Dos 513 deputados federais eleitos, a porcentagem de formados é de 80%.

Nível educacional dos deputados federais brasileiros. (Arte: Elisa Ponciano/Fonte: TSE).

O fator formação como determinante

Por muitos, a questão levantada com o tema é se a formação superior impacta no desempenho dos representantes da população. Para o senador Irajá Abreu (PSD-TO), há sim um impacto.

Em 2016, como deputado federal, ele propôs a exigência da formação superior para cargos políticos por meio da PEC 194/2016. A proposta exigia a conclusão de curso de graduação de nível superior em qualquer área como condição de elegibilidade para os cargos de senador, deputado federal, estadual ou distrital, presidente, vice-presidente, governador, vice-governador, prefeito, vice-prefeito e vereador.

Na época, Irajá falou na Câmara dos Deputados que a ideia seria exigir maior qualificação dos representantes.

“Hoje, verificamos que muitos membros do Poder Legislativo possuem, inclusive, dificuldade de leitura, o que impede que os membros atuem de modo efetivo nas suas funções constitucionais, na medida em que o exercício de tais funções torna-se cada vez mais complexo e dependente de conhecimentos específicos”, declarou o então deputado ao explicar a PEC à Câmara.

Tramitando desde então, a proposta foi arquivada em janeiro deste ano.

Os políticos como líderes

Se colocarmos os políticos em um contexto de líderes e realizarmos a analogia com profissionais que exercem cargos de gestão no setor privado, eles precisam não só da formação, mas de diversas habilidades profissionais.

Segundo a consultora de carreira e gerente de negócios corporativos da Thomas Case & Associados, Marcia Vazquez, 60 anos, para cargos de liderança, o nível educacional é só parte da qualificação de um líder. “Formação acadêmica e experiência andam juntas. A gestão do conhecimento e do capital intelectual do líder é questão fundamental. Isso qualifica os perfis de alto desempenho”, comenta.

Além da formação educacional, Marcia destaca quatro habilidades que devem fazer parte do perfil de pessoas em cargos de gestão, sendo ou não políticos: habilidades intrapessoais, interpessoais, habilidade nos negócios e de liderança.

Quando se trata de formação, não existe um curso próprio para seguir na carreira política. Algumas graduações estudam mais o tema, como é o caso de Ciências Sociais, que possui especialização em Ciências Políticas e, mais recentemente, o tecnólogo em Gestão Pública tem ganho destaque. No entanto, de acordo com o Mapa das Profissões, cursos como Administração, Economia, Direito e Sociologia também seriam áreas indicadas para quem pretende se especializar e seguir na área.

A mestre em Ciência Política Jéssica da Silva Duarte, 27 anos, acredita que, no geral, a formação não determina o desempenho, mas interfere na capacidade de avaliar os processos legislativos nos quais o político está inserido. Para ela, o fundamental no perfil dos governantes é o respeito às leis, à constituição, às instituições e seu funcionamento, e que ele seja capaz de tomar decisões sejam elas individuais ou a partir da expressão coletiva.

Link da publicação: http://bit.ly/2wBzdAI

Thomas Case & Associados

Ao longo de 42 anos de atividades, nossos especialistas em Transição de Carreira, Outplacement, Coaching, Executive Search e Desenvolvimento contribuem com reportagens para diversos veículos de comunicação do país, por isso, a Thomas Case & Associados é considerada uma das principais fontes para consultas.

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