Manuseie com Cuidado

Como identificar se você trabalha em um ambiente tóxico? Marcia Vazquez, consultora sênior de carreira da Thomas Case & Associados, foi uma das entrevistadas pela Revista Claudia – na edição de aniversário – para falar sobre o que fazer para criar condições de trabalho mais saudáveis nas empresas.

Por Bárbara dos Anjos Lima

Ambientes de trabalho tóxicos não são um fenômeno novo. Mas cada vez mais funcionários estão tomando consciência do que é preciso fazer (e, às vezes, exigir) para criar condições mais saudáveis nas empresas, onde passamos boa parte dos dias.

A atriz Ellen Pompeo virou notícia este ano por se tornar a mulher mais bem paga da TV americana. Seu salário supera também o de seus colegas atores homens. A conquista da protagonista de Grey’s Anatomy é histórica e precisa ser celebrada por quebrar barreiras do machismo. Mas também merece aplausos por ser resultado da resiliência profissional da atriz. Trabalhar em um ambiente tóxico por mais de uma década foi a principal razão pela qual Ellen batalhou por um pagamento justo e quis uma vaga como produtora da série. Em uma entrevista recente para a revista americana Variety, a intérprete de Meredith Grey contou que pensou em pedir demissão diversas vezes até decidir encabeçar as mudanças. “Tivemos vários problemas nos bastidores. Sérios conflitos, péssimos comportamentos e uma área de trabalho bem nociva”, afirma.

Relacionar o termo tóxico ao ambiente de trabalho é algo recente, apesar de os reflexos disso atingirem as empresas – e seus funcionários – há muito tempo. A boa notícia é que esse fenômeno hoje é reconhecido como um problema. “As gerações antigas foram criadas de maneira rígida e autocrática. Mas as formas de trabalho mudaram muito, as pessoas querem trabalhar e viver de verdade, se expressar… Isso impacta as relações e mexe com a sociedade inteira”, diz Tânia Moura, vice-presidente da Associação Brasileira de Profissionais de Recursos Humanos (ABPRH), em São Paulo. Ponto para as gerações mais jovens, que souberam enxergar com mais clareza que, para ter realização pessoal, é importante manter o equilíbrio e não só abaixar a cabeça.

PERIGO: INFLAMÁVEL!

São inúmeras as situações que indicam que um ambiente é tóxico. Falta de respeito entre os funcionários, competição excessiva estimulada pela exigência de resultados cada vez maiores, comunicação incompleta, falta de promoção, líderes inseguros, fofocas. Tudo isso tem reflexos diretos no dia a dia. Mesmo assim, é possível que leve um tempo até você reconhecê-los. Mas há sinais.

O despertador toca e, não importa quantas vezes você aperta o modo soneca, a vontade de trabalhar não vem. O ânimo está seriamente comprometido. Alerta vermelho. Nesse momento, pode bater a dúvida: sou eu que estou insatisfeita ou é o ambiente que está causando isso? O primeiro passo para responder a essa pergunta é fazer uma autoanálise. Todos os empregos têm algum nível de estresse, mesmo em dias bons. No entanto, se ir ao trabalho (ou apenas pensar nele) a deixa nervosa, mal-humorada ou até com sintomas físicos negativos (dor de cabeça, palpitações ou tonturas), há algo mais grave acontecendo. Depois, converse com seus colegas mais próximos para descobrir se eles têm reclamações similares. “Caso os relatos sejam parecidos com o que você observa e sente, é bem provável que a questão seja com a empresa. Quanto maior for a certeza de que as suas entregas são honestas e agregam à organização, mais fácil será distinguir se o problema é pessoal ou da empresa”, diz a psicóloga especialista em recursos humanos Rosangela Manfredini, sócia-fundadora de A Fábrica de Talentos.

Mesmo depois de concluir que não está feliz no trabalho, nem sempre a saída é pedir demissão. Se você quer ou precisa ficar onde está, vale partir para uma ação concreta para mudar sua relação profissional. O mais indicado é cuidar da sua rotina, começando pelas pessoas que estão ao seu redor. Afaste-se da fofoca, daquele colega que adora criar um problema. Evite entrar nesse jogo, não repercuta boatos. Filtre sua fala e suas reclamações – virou hábito ou é algo real?

“É possível se tornar alguém melhor. E também ajudar os outros nessa trajetória. Peça ajuda e estenda a mão a quem demonstrar reciprocidade. Sempre existirão as pessoas bem-intencionadas. Procure por elas”, recomenda Marcia Vazquez, especialista em gestão de carreiras e gestora do capital humano da Thomas Case & Associados.

E mais: se for essencial manter esse emprego, deixe claro para si mesma o motivo. Pode ser uma dívida pendente, um projeto ou até a saúde financeira da família. Para a intérprete de Meredith Grey, a virada veio com a maternidade. “Quando tive minha filha, durante a sexta temporada, aos 40 anos, percebi que tinha que cuidar da minha família e que não seria fácil ter esse salário em outro lugar. Tornou-se meu objetivo transformar esse cenário e ter uma experiência de que eu pudesse ficar feliz e orgulhosa.”

Lembre-se de que, se a situação envolver assédio ou outras práticas contrárias às políticas da empresa, é recomendado recorrer ao setor de recursos humanos.

NÃO GUARDE PARA SI

“O clima negativo é tudo de que um negócio não precisa. Traz consequências diretas para a companhia”, diz a coach de carreira Valerya Carvalho, de São Paulo. As pessoas se distraem com o drama, as fofocas, levando à perda de produtividade e, consequentemente, de lucro – duas palavrinhas mágicas para as corporações. Para situações tóxicas mudarem, cabe às empresas repensar suas dinâmicas.

Nos Estados Unidos, por exemplo, a questão do bullying no trabalho está recebendo atenção até dos governos estaduais. Atualmente, 26 estados já sancionaram uma versão do Projeto de Lei Saudável no Local de Trabalho. No Brasil, diversas empresas têm regimentos internos que regularizam relações. “Práticas e políticas de RH transparentes, aliadas a um código de conduta e ética claro, são fundamentais. É importante também que a corporação tenha uma ferramenta por meio da qual os funcionários possam fazer relatos anônimos”, afirma Tânia. “Antes de se dirigir aos responsáveis, anote tudo que incomoda, comportamentos observados e sentimentos envolvidos. Ao repassar isso, use técnicas de comunicação não violenta”, sugere a psicóloga Bia Nóbrega, de São Paulo. Se empresa e funcionários estiverem alinhados, é possível, sim, mudar um ambiente tóxico.

FOI BOM, VALEU, ADEUS

Não é fácil encarar a rotina de um trabalho que faz você infeliz. Mas, antes de partir para a atitude radical da demissão, reflita sobre suas expectativas. A carreira é muito importante na equação, mas é só uma parte dela – se o trabalho oferecesse só maravilhas, a gente pagava, e não recebia para isso. “Um ambiente positivo não é de extrema paz; ele tem conflitos e problemas. As soluções são encontradas na construção coletiva”, afirma Marcia. Ou seja, não existe lugar perfeito, mas também não deve custar sua saúde.

Tornar as rédeas de sua carreira significa tanto fazer movimentos para mudar o ambiente em que está quanto buscar um lugar que se adapte às suas necessidades e valores. Se concluir que precisa trocar de emprego, planeje-se (especialmente financeiramente) para fazer essa transição da melhor forma possível. “Descubra seus valores e não abra mão deles. Pessoas felizes em ambientes colaborativos geram mais resultados”, garante Rosangela.


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Thomas Case & Associados

Ao longo de 42 anos de atividades, nossos especialistas em Transição de Carreira, Outplacement, Coaching, Executive Search e Desenvolvimento contribuem com reportagens para diversos veículos de comunicação do país, por isso, a Thomas Case & Associados é considerada uma das principais fontes para consultas.

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