Com autoajuda de 100 anos atrás, Napoleon Hill é best-seller no Brasil

Por que dicas para desenvolvimento pessoal e profissional de uma obra lançada há quase cem anos se tornaram tão representativas nos dias de hoje? Marcia Vazquez, consultora de carreira e psicóloga na Thomas Case & Associados, é entrevistada pela plataforma TAB do UOL como fonte especialista para falar sobre a representatividade das ideias de Napoleon Hill nos dias de hoje.

Por Heloísa Noronha – Colaboração para o TAB

Nunca se ouviu falar tanto no escritor norte-americano Napoleon Hill como nos últimos tempos. Lançado em 2011, “Mais Esperto que o Diabo” vendeu mais de 110 milhões de cópias em todo o mundo. Desde 2017, quando a editora gaúcha Citadel adquiriu os direitos de tradução e reprodução das obras dele para o português, o livro integra a lista de mais vendidos do site PublishNews, sobre notícias do mercado editorial, e da revista VEJA, onde ocupa o primeiro lugar na categoria Autoajuda e Esoterismo há 77 semanas (não consecutivas).

O sucesso despertou o interesse para outros títulos do autor, como “Quem Pensa Enriquece” e “As Leis do Triunfo”, somando um milhão de exemplares comercializados no Brasil. O que há por trás de tamanho êxito, considerando que em 8 de novembro fará 50 anos que Hill morreu, aos 87 anos de idade?

“Mais Esperto que o Diabo” é um lançamento póstumo de um original escrito em 1938, que foi escondido durante décadas pela viúva e por amigos de Hill, incomodados com o conteúdo — uma entrevista fantasiosa com o tinhoso — que batia de frente com os ideais protestantes da época nos Estados Unidos. Já “As Leis do Triunfo”, considerado um dos livros mais influentes do mundo, foi lançado pela primeira vez em 1928. O que explica, então, o hype atual em torno de um autor nascido no século 19 e com escritos praticamente centenários?

Primeiro, é preciso relembrar a trajetória de Napoleon Hill, que nasceu na Virgínia (EUA), em uma família pobre. Aos dez anos de idade, perdeu a mãe e se tornou uma criança rebelde. O pai se casou novamente dois anos depois — e não iludiu a nova esposa a respeito do temperamento difícil do rebento. A madrasta, no entanto, optou por incentivá-lo em vez de adotar uma postura reativa, explicando que ele deveria aproveitar melhor a inteligência que, provavelmente, não sabia como expressar.

Hill ficou impactado por suas palavras e, aos 13 anos, passou a escrever para o “Mountain Reporter”. Em 1908, teve a oportunidade de entrevistar o magnata do aço Andrew Carnegie (1835-1919), famoso nos quatro cantos do planeta por sua fortuna. Foi Carnegie quem propôs a Hill que investigasse, entre os homens bem-sucedidos de então, o que tinham em comum em suas jornadas que os levaram ao prestígio e à riqueza.

Por mais de vinte anos, Hill conversou com cerca de 16 mil pessoas — entre as quais os 500 milionários marcantes do período — para compilar dicas sobre como qualquer um poderia prosperar como eles. Theodore Roosevelt (1858-1919), o 26º presidente dos Estados Unidos, o empreendedor Henry Ford (1863-1947) e o petroleiro John D. Rockfeller (1839-1937) foram alguns dos entrevistados. A pesquisa resultou em sua primeira e mais icônica obra, “As Leis do Triunfo”.

O poder da mente

Objetivo principal definido, autoconfiança, hábito de poupar, iniciativa e liderança, imaginação, entusiasmo, autocontrole, fazer mais do que é pago para fazer, personalidade agradável, pensamento preciso, concentração, cooperação, tirar proveito dos fracassos, tolerância e a regra de ouro, que consiste na máxima “você pode fazer se acreditar que pode”, são, resumidamente, as leis reunidas por Napoleon Hill. Uma passada rápida de olhos por elas já mostra que os preceitos permeiam diversos livros de autoajuda, liderança e autoconhecimento que surgiram posteriormente — e que seguem se multiplicando nas prateleiras das livrarias.

De modo geral, uma das principais conclusões do autor foi a de que a mente — ou melhor, o pensamento — é fundamental para alcançar objetivos na vida, ideia que também serviu como estrutura para a criação da PNL (Programação Neurolinguística), nos anos 1970. Ele criou, ainda, o conceito de MasterMind (Mente Mestra), cujo método se transformou em um curso. Em 2019, quatro mil alunos distribuídos entre Brasil, Estados Unidos, Portugal e Angola receberam a certificação.

Segundo especialistas, a representatividade das ideias de Napoleon Hill nos dias de hoje se deve ao fato de que seus escritos contemplam temas atemporais.

“Mesmo passados cem anos, pouco evoluímos em nossa maneira de ser e agir, apesar das enormes transformações tecnológicas, científicas e sociais, entre outras, que nos cercam”, observa Marcia Vazquez, consultora de carreira e psicóloga na Thomas Case & Associados, em entrevista ao TAB. “Continuamos com angústias e incertezas parecidas às de nossos ancestrais, mesmo vivendo em momento distinto. Nossos questionamentos sobre nós e os outros continuam a acontecer, apesar das visões um tanto diferentes por conta dos diversos contextos sociais, econômicos e profissionais atuais.”

A psicóloga clínica Blenda de Oliveira não descarta o mérito de obras do gênero no sentido de despertar os leitores para certas questões. No entanto, chama a atenção para o fato de que livros como os de Hill vendem a ideia de que felicidade é sinônimo de sucesso — o que cria uma exigência muito grande em torno de acumular riqueza e se tornar alvo de admiração e prestígio. É um conceito de prosperidade que não alcança todo mundo; caso contrário, esbarraríamos em milionários a cada esquina. “Talvez fosse mais interessante que as pessoas se conscientizassem de que há valor em fazer o que fazem, do melhor jeito possível, com as ferramentas que têm disponíveis”, opina.

Para todos ou quase todos?

É válido mencionar que, embora tenha trabalhado como consultor de Relações Externas da Casa Branca durante o mandato de Woodrow Wilson (1856-1924) e escrito os célebres discursos do presidente Franklin Delano Roosevelt (1882-1945), Napoleon Hill não teve uma vida cheia de glórias como aquelas que seus textos garantem ser possíveis para qualquer mortal.

Ele ganhou, sim, salários robustos e se destacou pela qualidade de sua escrita, mas o poder supremo da mente não poupou Hill de vários dissabores na vida, como os dois casamentos desfeitos, um curso de Direito interrompido por falta de recursos financeiros, falências e até acusações de fraudes em certos empreendimentos. O autor nunca atingiu as benesses propagadas em “Quem Pensa Enriquece” e morreu sem ostentar uma fortuna significativa.

Para o consultor de carreira Emerson Weslei Dias, docente da Fipecafi (Fundação Instituto de Pesquisas Contábeis, Atuariais e Financeiras), a análise da relevância de obras de autoajuda deve considerar o contexto político, econômico e social do momento. “No Brasil, desde 2014, estamos com a economia estagnada. Em épocas de crises econômicas, alto nível de desemprego e perspectivas do futuro do trabalho não muito favoráveis, um quadro que piorou ainda mais com a pandemia do Covid-19, há um aumento de vendas desses livros. Qualquer coisa que pareça positiva ameniza”, diz ao TAB.

“Nunca é como os livros dizem: ‘só depende de você’. Eu vejo muita gente que nunca viveu em periferia, por exemplo, dizer que evoluir ‘só depende de você’ e que as pessoas precisam estudar, ler, se informar. Quem dá esse tipo de sugestão jamais precisou acordar às 5 da manhã e pegar um trem lotado, trabalhar a semana toda e, no fim de semana, ter na vizinhança um pancadão que não deixa dormir”, opina Dias. “Como alguém vai ler e aprender com esse tipo de situação? Há exceções? Claro que sim, mas enriquecer não é tão simples quanto propagam. Só o fato de o indivíduo ter estudado em um colégio de elite ou faculdade de ponta já dá a ele um enorme networking, valioso para toda a vida. E isso pesa mais do que meritocracia nas organizações”, conclui.

O recorte de gênero e raça é ainda mais excludente, colocando uma pá de terra sobre a “importância da força do pensamento” para a evolução pessoal e profissional de mulheres e negros, por exemplo, e a desigualdade de oportunidades é explícita no Brasil. De acordo com Cynara Bastos, especialista em psicologia organizacional e social e supervisora de carreiras do Ibmec São Paulo, o contexto das situações é necessário, mas não deve ser encarado numa ótica determinista de “8 ou 80”.

“Não se pode dividir a vida entre ‘para você é fácil’ e ‘para mim é difícil’, pois isso faz com que as pessoas percam de vista a importância de assumir o leme de suas trajetórias”, pondera. “Dentro da leitura de Napoleon Hill, encontramos falas machistas, preconceitos, sugestões ultrapassadas. Afinal, foram textos escritos há praticamente 100 anos. É preciso contextualizá-los e colocar em prática o que faz sentido individualmente. Mais do que isso, refletir sobre como faz uso do conhecimento adquirido ao longo da vida, de várias formas”, completa a psicóloga Carla Guth.

Link da publicação: https://tab.uol.com.br/noticias/redacao/2020/10/11/dicas-do-sucesso-e-autoajuda-de-napoleon-hill-fazem-sentido-ate-hoje.htm

Thomas Case & Associados

Ao longo de 43 anos de atividades, nossos especialistas em Transição de Carreira, Outplacement, Coaching, Executive Search e Desenvolvimento contribuem com reportagens para diversos veículos de comunicação do país, por isso, a Thomas Case & Associados é considerada uma das principais fontes para consultas.

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